domingo, 9 de outubro de 2011

Entrevista: Igor Correia



     Nascido em Maceió, Igor Correia decidiu investir na carreira de compositor musical. Vendo a escassez de sua terra natal para o ramo, decidiu morar em Curitiba, onde poderia exercer a profissão mais facilmente. Cursou Produção Sonora pela Universidade Federal do Paraná e, após adquirir o grau de Bacharel, partiu para o mestrado em Composição Musical no Canadá, pela University of Toronto, onde estudou com o compositor grego Christos Hatzis. A competência do artista lhe rendeu prêmios, tais como o Karen Kieser Prize 2008, na categoria Canadian Music e sua música já foi tocada pela Sneak Peak Orchestra, The TorQ Percussion Quartet e Madawaska String Quartet, dentre outras.
     Atualmente, Igor trabalha como editor musical de um selo canadense e compõe músicas para filmes, games, comerciais, etc. Recentemente, foi escolhido para participar do Emerging Composer - Filmmaker Matchup 2011, da Screen Composers Guild of Canada, onde teve uma peça de sua autoria gravada por uma orquestra no CBC's Glenn Gould Studio.
     Na entrevista cedida ao Ouvido Interativo, Igor fala sobre influências, composição, direitos autorais, etc. Confira abaixo:

Quais suas principais influências?

Então, eu acho que as minhas influencias estão sempre mudando. Toda vez que eu escuto algo novo que me faz parar e ouvir se torna uma influencia de imediato. Aqui vao alguns nomes que me fizeram parar nos últimos anos: Stravinsky (claro!), Valentin Silvestrov, Amon Tobin, John Tavener e mais um monte de gente e bandas.

A ausência de cursos de regência, bacharelado em instrumentos e composição em Maceió faz com que muitos músicos desistam de uma formação acadêmica e passem a produzir sua arte como hobby. Como estudante que saiu do “conforto de casa” para estudar no sul do país e, posteriormente, no exterior, quais conselhos você tem para os que querem seguir o mesmo rumo?

Se você mora em um grande centro urbano, ótimo! Se nao, precisa se mudar. É assim em toda industria criativa. Além do mais, faz bem para a criatividade o esfrega-esfrega com outras pessoas, outras culturas, outras ideias. No passado, os artistas faziam essas mesmas coisas, se mudavam para grandes centros para poder viver da sua arte. O meu conselho é: se você quer mesmo viver de arte, tem que ir para um grande centro urbano.

 Quais as principais diferenças do curso de produção sonora e composição?

Eu fiz o curso de produção sonora em Curitiba na UFPR e um mestrado em composição na Universidade de Toronto. O curso de produção sonora foi um curso de tecnologia e música em geral, nada muito específico na verdade. Hoje eu vejo o que ele não foi: um curso técnico - o que na verdade faz sentido, pois é um curso universitário! Claro você aprende algumas coisas técnicas mas foi um curso que por causa dos professores que tive era mais sobre o pensar e resolver problemas. O curso de composição aqui de mestrado é um curso na verdade técnico. Você escreve, escreve e escreve. Tem suas peças executadas e pronto. Essa foi a principal diferença - além é claro da diferença de infra-estrutura! Qualquer partitura e livro que eu quisesse eu tinha acesso pela Universidade de Toronto. Faz muita diferença!

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Como se dá seu processo de composição musical? Existe uma rotina, pré-estrutura, algum pensamento estilístico, etc. ou simplesmente a inspiração é quem dita as regras?

Sim, existe uma rotina que eu uso. Eu acho que é diferente pra cada um. Depois de decidido a instrumentação eu penso no som. Eu me pergunto, que tipo de som eu quero? Então eu vou pesquisar e ouvir outras peças que tem um som parecido até encontrar alguma coisa interessante. Algo que eu não sei como produzir. Eu acho que é então que vem minha inspiração - do desafio. Eu estudo uma peça por um bom tempo e depois começo a escrever. É como Picasso dizia "Bons artistas copiam, grandes artistas roubam"! Eu sempre faço isso na verdade. Depois do empurrão inicial eu vou sozinho e a peça começa a criar vida própria. Quando eu paro e não sei para onde ir, eu então volto para aquela peça que eu estava estudando e vejo como o compositor se livrou de desafios que agora eu encontro. E por aí vai. Nada é completamente original.

Até que ponto o 'preconceito' do músico influi no seu processo criativo? É possível o compositor desnudar-se das suas certezas musicais e produzir uma arte que ultrapasse a barreira daquilo que ele ache pertinente?

Acho que depende o que você quer dizer por pertinente. Pertinente para quem? Para o músico? Acho que não. Aquilo que você acha pertinente é aquilo que provavelmente mais o interessa e criar algo que não te interessa soa estranho para mim. 
Preconceito é uma palavra estranha também. Talvez "filtro" seja melhor, não? O filtro influi demais. Mais do que desnudar-se as suas certezas musicais eu acredito que você deve abraçar as suas certezas (ou escolhas) musicais mas sem fechar os olhos. É uma certeza que pode ser transformada a cada dia. Nada é certo, ainda mais na arte. Acho que a maior barreira a ser ultrapassada é a barreira do exercício. Quando aquilo que você criou deixa de ser um exercício e se torna arte ou algo pertinente? Isso é fácil de ver quando você vê alunos de doutorado apresentando suas peças ao lado de alunos de primeiro ano da graduação.



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Na sua experiência como compositor, tem sido mais difícil produzir músicas para filmes e comerciais, que já vêm com pré-conceitos sonoros estabelecidos, ou compor livremente, sem tais “amarras” para a produção sonora?

Muito mais difícil compor para concerto. Pois você é o dono da narrativa. Música para outros meios é mais fácil pois você divide aquela narrativa com outros veículos.

Confira o curta Dreamscape, com trilha de Igor Correia, clicando AQUI

De que forma o conceito de paisagem sonora, proposto por Schaffer, pode ser abordado para reeducar o nosso comportamento em sociedade, no que tange à poluição sonora ou ressignificação do som propriamente dito?


Não sei. Ah! Na verdade o que seria a poluição sonora? Eu acho que estamos mais antenados em som do que nunca. Mas eu não lembro muito da literatura de Schaffer para responder a pergunta. Mas eu tive uma aula particular como o Schaffer. Ele é uma figura. Parece um pirata! Ele viu uma peça minha baseada no inferno de Dante e sobre o terceiro movimento, que era o paraíso, ele disse: Mas isso aqui tá muito quieto, chato. E eu disse: Mas é o paraíso! Schaffer: A minha visão do paraíso é todo mundo fazendo festa, um agito! haha!

No Brasil, o alto imposto cobrado pela importação de produtos faz com que a compra de livros, álbuns e softwares musicais estejam fora da realidade da maior parte dos estudantes, que acabam recorrendo à pirataria como forma de burlar tal condição. No entanto, ao se formarem profissionais, continuam a utilizar de tais métodos, o que não só prejudica os autores de tais produtos, como também desvaloriza o trabalho daqueles que utilizam os originais em sua produção. Em sua opinião, como o estudante brasileiro deve proceder para suprir suas carências sem que hajam tais prejuízos?

Como todo estudante brasileiro, eu tinha uma xeroteca! Essa é uma boa pergunta que eu também não sei como responder. Atinge não só os estudantes de música mas todos os estudantes. Recentemente, se não me engano, houve mais uma lei de protecionismo passada pela presidente - o que aumenta o preço de produtos importados. A pirataria e os direitos autorais no país são um problema muito grave que eu não sei nem por onde começar. Na verdade, a primeira coisa que Schaffer me disse quando eu disse que era do Brasil foi que nós deveriamos pagar os royalties nas salas de concerto. Que imagem, não?
Sinceramente, não sei. Parece que nessa questão estamos 100 anos atrasados e os problemas são tão profundos que eu fico tonto só de pensar. Quando o presidente desce do avião com um filme nacional pirata e nada acontece com o mesmo... que imagem ele está passando para o resto da nação? 

Confira o trabalho do artista em seu site oficial: www.igorcorreia.com 
Myspace: http://www.myspace.com/igorcorreia

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